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Terapia com Anticorpos Monoclonais

1) Como funciona o nosso sistema imune?
Nosso sistema imune é capaz de fabricar anticorpos com cerca de 10 diferentes especificidades. Mesmo ao reagirmos contra antígenos simples, fabricamos uma mistura de anticorpos, com maior ou menor especificidade e avidez em relação à molécula estimuladora.

2) Os anticorpos podem ser fabricados por um clone de nossas células?
Cada um desses diferentes anticorpos é fabricado por um único clone de linfócitos B, após sua transformação em plasmócitos. Os linfócitos B pertencentes a um mesmo clone estão comprometidos, durante toda sua vida, a fabricar um único tipo de anticorpo. Muitos dos anticorpos formados na resposta imune contra um determinado antígeno, porém, são de tão baixa especificidade e avidez que acabam por ter uma ação biológica muito pequena.

Os plasmócitos retirados de um indivíduo e mantidos em meio de cultura “in vitro” continuam a fabricar anticorpos. Podemos selecionar o clone de plasmócitos que fabricam o anticorpo com maior especificidade e avidez para um determinado antígeno. O sobrenadante da cultura desse clone isolado de plasmócitos será rico em anticorpos com alta ação biológica. Os plasmócitos, porém, são células terminais, não mais se dividem e acabam por sofrer apoptose. O sistema de produção “in vitro” de anticorpos, obtido da maneira acima descrita, além de apresentar uma baixa produtividade, seria auto-limitado.

3) Existem plasmócitos capazes de se multiplicar "in vitro" e não sofrer apoptose?
Os únicos plasmócitos capazes de se multiplicar “in vitro” e de não sofrer apoptose são aqueles obtidos de portadores de mieloma múltiplo. Esses plasmócitos constituem um clone de células neoplásicas, imortalizadas, capazes ou não de fabricar anticorpos. Quando produzidos, os anticorpos são todos iguais, apresentando avidez e especificidade semelhante, contra um único antigeno.

A célula da qual se originou a neoplasia era capaz de reagir contra esse antígeno. Do ponto de vista histórico, essas proteínas produzidas pelo mieloma múltiplo foram os primeiros anticorpos monoclonais a serem identificados e serviram como modelo para o estudo da estrutura das imunoglobulinas. Em 1975, Georges Köhler e Cesar Milstein conseguiram obter uma célula híbrida tumoral (hibridoma), originária da fusão de um linfócito B normal com uma célula proveniente de um mieloma múltiplo.

A célula híbrida apresentava, ao mesmo tempo, o caráter imortal da célula mielomatosa e a capacidade de fabricar anticorpos com a mesma especificidade que os fabricado pelo linfócito B normal. O hibridoma constitui-se em uma verdadeira fábrica de anticorpos monoclonais. Através da divisão celular, a produção aumenta, estendendo-se através do tempo devido à imortalidade das células.

4) Qual é o processo para se produzir um anticorpo monoclonal contra um determinado antígeno?
Para se produzir um anticorpo monoclonal contra um determinado antígeno, inicialmente imuniza-se um animal, geralmente um camundongo, com esse antígeno. Em seguida, isolam-se células B do baço ou linfonados desse animal. Estas células são misturadas com células de mieloma múltiplo, do tipo que não produz imunoglobulina, e que não sobrevivem em determinados meios de cultura, como por exemplo o meio HAT (meio de cultura que requer a existência de enzimas capazes de metabolizar a hipoxantina ou a timidina, na presença de um antimetabólito, a aminopterina, para que a célula não morra).

Essas células são então expostas ao polietilenoglicol, o que provoca sua fusão, formando-se então células híbridas. Após 1 a 2 semanas, as células B do baço ou linfonodos, que não se fundiram, sofrem a esperada apoptose. As células mielomatosas que não se fundiram também morrem, por não possuírem as enzimas necessárias para a sobrevivência no meio de cultura na presença de aminopterina.

As células híbridas, por obterem as enzimas das células normais e a imortalidade das células neoplásicas, são as únicas a persistirem no meio de cultura. Então estas células são replicadas em placas de cultura, tentando-se colocar 1 célula em cada orifício. Elas irão se multiplicar, cada uma originando um clone de células híbridas (hibridoma), capazes de fabricar anticorpos com uma única especificidade.

Através de métodos imunológicos a especificidade das imunoglobulinas presentes nos sobrenadantes pode ser testada, identificando-se os orifícios onde estão os hibridomas capazes de fabricar anticorpos contra o antígeno utilizado para imunizar o camundongo. Através de diversas partições das culturas e inúmeros testes, chegamos à obtenção de uma população homogênea de células híbridas, capazes de serem mantidas e de replicarem em meio de cultura, que fabricam o anticorpo por nós desejado. Os animais mais freqüentemente utilizados na produção de anticorpos monoclonais são os camundongos, os ratos e os hamsters.

5) Os anticorpos obtidos podem ser usados como agentes terapêuticos em seres humanos?
Os anticorpos obtidos, ao serem usados como agentes terapêuticos em seres humanos, por serem proteínas estranhas, acabam sendo inativados pela reação imunológica do paciente. Tentou-se resolver este problema fazendo hibridomas de células de mieloma humano fundidas com linfócitos murinos, mas a eficácia desse método é baixa devido à distância evolutiva entre essas duas células.

Outra possibilidade, que vem sendo tentado, é a obtenção de hibridomas puramente humanos. Uma outra solução para o problema da antigenicidade do anticorpo murino é a criação de “anticorpos híbridos”, obtidos por engenharia genética, onde a parte da imunoglobulina que se liga ao antígeno, (Fab), derivada do camundongo, é fundida com a parte estrutural (Fc), derivada de uma célula humana. Simplificadamente, isso é feito da seguinte maneira: o DNA do camundongo, que codifica a fração Fab, é fundido com o DNA humano que codifica a fração Fc.

O gen resultante é transfectado para a célula imortalizada, que passa a fabricar o "anticorpo quimérico". Pode-se ainda usar só uma pequena parte da fração Fab, ou seja, só a região hipervariável que efetivamente liga-se ao antígeno, combinada a um anticorpo humano quase que completo, produzindo-se assim um "anticorpo humanizado".

6) Estes anticorpos monoclonais já tem sido utilizado na prática clínica?
A disponibilidade de técnicas cada vez mais eficientes para a obtenção de anticorpos monoclonais os tem disponibilizado para uso terapêutico de rotina. A possibilidade de se ligar outras moléculas aos anticorpos, tais como marcadores ou substâncias tóxicas, tem aumentado o leque de suas utilidades, tanto diagnósticas como terapêuticas.

7) Que anticorpos monoclonais já se encontram disponíveis para utilização na prática clínica?
O uso de anticorpos monoclonais na clínica diária está cada vez mais difundido, com ótimos resultados. Uma série de anticorpos já se encontra disponíveis comercialmente e outros estão em fase adiantada de pesquisa, tais como o bectumomab, o capromab, o edobacomab, o edrocolomab, o enlimomab, o felvizumab, o ibritumomab, o inolimomab, o tositumomab, o muromonab-CD 3, o nebacumab, o priliximab, o satumomab pendetide, etc.

8) Com que finalidade são utilizados estes anticorpos monoclonais?
Tais anticorpos monoclonais são usados no diagnóstico de tumores, metástases, focos ocultos de infecção; para o tratamento de tumores, infecções e condições clínicas diversas tais como sépsis, rejeição de transplantes e doenças auto-imunes; são usados isoladamente ou associados a quimioterápicos ou agentes radioativos (radioimunoterapia).

A ampliação do conhecimento dos mecanismos íntimos das doenças, através da biologia molecular, aumenta o número de antígenos correspondentes a pontos cruciais na sua fisiopatogenia, tornando a possibilidade do desenvolvimento de novos anticorpos monoclonais infindável. A sua utilização tornará cada vez mais eficiente o diagnóstico e tratamento de inúmeras pragas que acometem a humanidade desde tempos imemoriais.

Autor

Dr. Carlos Alberto Reis Freire Médico Especialista em Oncologia Clínica, Prof. Adjunto do Departamento de Medicina e Coordenador do Curso de Especialização em Oncologia Clínica da UNIFESP-EPM

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